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ANTÓNIO SÉRGIO

(1950 - 2009)



Parafraseando alguém, voltaremos a encontrar-nos no éter”


Há cerca de trinta anos, teria eu catorze, frequentava o 9º ano no Liceu Passos Manuel.

Companheiro inseparável, um Philips forrado a pele de cor creme (um rádio AM/FM mono, “portátil” com 4 pilhas de 1,5 V), acompanhado da indispensável “banana” (auricular), tudo pertences de minha avó. Este equipamento áudio era utilizado nas tardes em que as aulas de matemática ou de uma outra disciplina qualquer, coincidiam com a emissão do “Duplo R” ou melhor do “Rolls Rock”. Sentado ao fundo, num canto da sala de aula, junto á janela, sintonizava o rádio, camuflado num grande saco de polyester de cor vermelha que utilizava para guardar o equipamento dos treinos diários de Judo, ao fim da tarde, no Ginásio Clube Português.

Esses momentos fantásticos, substituíam a matemática ou outra disciplina qualquer, António Sérgio ministrava matérias verdadeiramente alternativas.

Abandonado o velho mas cumpridor Philips, outros meios áudio mais sofisticados foram utilizados para manter a proximidade, sempre á socapa dos professores.

Ao longo de anos, segui António Sérgio.

Mais tarde, a família, o emprego, as horas de deitar e levantar, mas António Sérgio e as suas meninas aos gritos, (era assim que a minha ex-mulher as descrevia), Anne Clark, Laurie Anderson, Lisa Gerard, Liz Fraser, Siouxsie Sou, Virginia Astley, entre outras, continuavam lá para meu gáudio, apesar de “NO AR” cada vez mais tarde, ou talvez cedo demais para mim. Nessa época já se fazia sentir o “chega pra lá” imposto pelas malfadadas Playlists, pelo que as TDK e as TEAC foram a solução para as emissões tardias. Longe estávamos das plataformas digitais e quem não pod (cast) usava cassetes, as quais ainda guardo com paixão.

Certo dia, na época em que se acentuou o principio do fim da rádio de autor, em Portugal, tomei conhecimento do fecho da XFM e, o consequente silenciar ensurdecedor, do que à data, não se sabia vir a tornar-se uma imensa minoria. Nesse mesmo dia, em que chegávamos ao fim do “Grande Delta”, nesse momento triste, em que uma vez mais nos subtraíam o nosso homem do leme, sem caminhos alternativos á vista, decidi, ser chegado o momento de dizer a António Sérgio, obrigado!

Se assim pensei, melhor o fiz e, durante essa última emissão, enviei-lhe umas simples flores ás quais juntei uma mensagem premonitória: “Voltaremos a encontrar-nos no éter”.

No final desse seu último programa, António Sérgio, despedindo-se dos seus ouvintes, disse:

- Parafraseando alguém, voltaremos a encontrar-nos no éter.


Anos mais tarde, e já depois de nos termos encontrado algures no éter, cruzei-me com ele na FIL em Lisboa por ocasião de uma feira dedicada á produção musical. Nesse momento hesitei, fiquei indeciso sobre se deveria aproveitar a oportunidade para lhe revelar que afinal o nosso encontro não fora apenas no éter mas também naquele preciso momento. No entanto resisti. Resisti porque quis fazer perdurar aquele nostálgico e misterioso momento do passado, ainda tão presente em mim.

Decidi que numa outra qualquer oportunidade em que nos cruzássemos, então sim, não mais hesitaria.


Perdi a oportunidade...